O dia desperta com o pôr-do-sol, a boca seca exala o odor amargo da ressaca, ainda deitado na cama. Os olhos despertam depois da tosse e estão protegidos pela persiana. O rádio anuncia dez para as seis, os pés alcançam o chão, as mãos o maço de cigarros e o isqueiro. O abajur provoca um inocente choque elétrico, encandeia uma garrafa de vinho esvaziada. As persianas são levantadas, o cotidiano adentra o quarto. A rua está desertificada, é possível escutar o vento dançando com as antenas, batendo nas janelas e o sincronismo do semáforo que dista mais de dez metros. O lençol envolto à cintura desvanece no meio do quarto, o chuveiro é ligado, a noite anterior desaparece no ralo. O espelho é limpo, a barba germina há pelo menos três semanas, os dentes são higienizados, as pálpebras retomaram o tamanho original. A porta emite som, a campainha silenciou-se, já lá vão oito meses e assim acomodou-se. Um som diferente é emitido pela maçaneta, uma voz ordena as letras a formar um nome, uma carta atravessa a porta. A cozinha é clareada, o fogão acesso, o almoço de ontem reaproveitado. Um vinho é pego da mesa, o saca-rolha retirado da gaveta, um copo também é reaproveitado. As primeiras palavras são as impressas, as do calendário, o rótulo não resistiu à garrafa. A rolha é inventariada, não é um Bordeaux ou um Porto – como em outras épocas – a procedência é ignorada. A carta é deitada no braço da poltrona, outro cigarro une-se aos lábios, o copo é reabastecido. Florbela é retirada da pilha de livros, os mesmos versos são lidos, “ rasga esses versos que eu te fiz... deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento... rasga-os na mente, se os souberes de cor”, os olhos desviam para a carta. Cigarro queima as pontas do dedo, outro é acesso, a poetisa é negligenciada no lado da poltrona. Uma faca desabotoa a carta, um papel escrito à mão, apenas a assinatura é lida e o papel faz companhia a Florbela. A janela da sala é aberta, assim como outra garrafa de vinho da mesma procedência ignorada. Leminski é resgatado de outra pilha de livros, uma caneta e um caderno preto sentam-se juntos. A lua é flertada pela janela, o charme é esboçado pela fumaça de mais outro cigarro enquanto outros versos são lidos. “Pense um pouco... beba bastante... depois me conte direito” proferida Leminski. Outra carta adentra o apartamento, sem ter sido anunciada pela porta, maçaneta ou por uma voz. Esta se junta a outras varridas para a parede, mais um comunicado interno do condomínio. O isqueiro é pego pela mão esquerda, o papel pela mão direita, as chamas consomem primeiro a parte inferior, mais uma vez apenas a assinatura é lida. O caderno preto é aberto, a caneta repousada na orelha, o olhar debruçado novamente à lua. Uma consoante é desenhada, seguido de uma vogal e outra consoante, as letras vão dando forma a palavras, estas a frases, estas a versos porém estes sem concordância gramatical ou semântica. Quatro estrofes preenchem a primeira página do caderno, são lidos em voz branda e descartados no lixeiro. Outra consoante é desenhada, o processo reinicia-se, as estrofes são lidas internamente. Não sabes que meus versos são lágrimas, dizia a primeira estrofe. O sentimento que delas germinam meu sangue, a segunda estrofe. Não enxergas na minha letra meu desespero e ensejo, continua a terceira estrofe. Entrego-te, o quarto verso é interrompido ao ser descartado mais uma página do caderno preto. O copo e a última garrafa de vinho secam, o último cigarro acaba de ser apagado. Os vícios o fazem olhar o relógio, pegar as chaves do carro, certificar se há dinheiro na carteira. O envelope da carta é visto o destinatário antes de fechar a porta do apartamento. No elevador reflete, indignado, os versos que acabara de escrever. Ao olhar o espelho indaga-se em voz alta, és um poeta fingido ou um fugitivo poeta. É cumprimentado pelo porteiro, responde com o movimento da cabeça, o motor é acionado, vira à direita e pega a rua principal.
UM POETA FINGINDO SER UM FUGITIVO POETA - 1º (DES) ATO escrito em sexta 02 maio 2008 14:03
Ascendo o cigarro ao contrário, ela sorri. (Parte 1) escrito em sábado 10 novembro 2007 02:02
Ascendo o cigarro ao contrário, ela sorri, o garçom traz outra cerveja. Já fazem uma hora que meu amigo está atrasado para o expediente pós métier. Era uma sexta-feira quente, do inicio de verão. A lua me flertava desde da sua chegada, ascendo, corretamente, o cigarro, ela sorri novamente. Seus olhos castanhos me intimidam mas não consigo os driblar, ela deve está se divertindo com a minha timidez. O boteco está cheio, blues ecoa, era musica orgânica, de boa qualidade, o garçom me entrega a carteira de cigarros. Ela ascende o cigarro, ao contrário, ela percebe meu sorriso. Luz diminui, a blues band irá começar seu recital, puxo o cigarro, o isqueiro esfuziou-se, ela sorri, eu peço o dela emprestado. Degusto o primeiro trago, esqueço de pergunta o seu nome, ela continua o sorri, tento mudar o dialogo, não escuto seu nome. Meu amigo avisa-me que não poderá vir, a convido a conferir os blues man do outro lado do boteco, ela não sorri, me acompanha. Embriago-me nos seus olhos, não culpo a cerveja, ela continua a sorri. Ela se a próxima do meu ouvido, seu perfume me silencia, ela percebe, eu não. No intervalo entre uma música e outra ela aplaudia, eu entrelaço meu braço na sua cintura. Silêncio permanece nossos lábios não. Ela me empurra para parede, eu o meu corpo ao dela. Seguro seu rosto, retiro o cabelo dos olhos, ela sorri, mordo seus lábios. Sua pele me dá frêmito, ela percebe, eu a convido a sair, ela recusa, me aponta o banheiro...
por
Waldimir Neto
Coração Aposentado escrito em quinta 19 abril 2007 01:55
Meu soneto numa pele semeio
Deslizando-o entre delicadas curvas
Indígena – descendência – e as uvas
Com lábios colho o néctar e leio
Sussurros aforisticos do meio
Recém, ambiente, nascido das turvas
Estrelas de outubro e a lua em luvas
De cetim da Índia dispo o seio.
Brisa lhe transcreve num tateado
Vertido, pela partitura, em tremulo
Ensejo de nos braços folhear,
No alvorecer carpido do mar,
A poética que intento eternizar:
Razão do coração aposentado.
À Camila Liborio escrito em segunda 12 março 2007 22:20
Nos teus olhos me perco no alfabeto
Soletro, o inverso, idioma de afeto.
Sorris da minha timidez adolescente
Debruço na tua pele como enchente
Descomponho o copo e tu não sentes
Minha respiração e voz ausente.
Com Recife, meu perfume, te seduzo
Lua soleniza minha paixão e te alerto
Em versos eternos... És minha!
Pseudos Versos escrito em domingo 11 fevereiro 2007 14:21
Solidão II
Quiçá a isolamento seja vício
Não comungo uma depressão,
Nenhum rancor no coração
Apenas contemplo o vazio.
Olho afável para o silêncio
Beijo a ausência com paixão,
Excito-me viúvo na contramão
Das ruas do Recife que acaricio.
Verbalizo pútrido odor da pele
Bálsamo degustado pelo câncer
Não estou enfermo e sim calejado
Flertando com a fumaça do cigarro
Bêbado com o alfabeto do verso
Órfão material e imaterial, porem, radiante.







